Três fatores que podem arruinar uma expedição

Três fatores que podem arruinar uma expedição

Eu aprendi que os erros que cometemos em uma expedição raramente são únicos ou especiais. Na verdade, é quase certo que eles já foram cometidos por alguém antes.

Podemos aprender muito com os erros em nossas aventuras – e muitas vezes podemos até prevenir um problema aprendendo com a experiência de outra pessoa. Eu aprendi muito com os outros, bem como com meus próprios sucessos e fracassos.

Nenhuma quantidade de bons conselhos pode garantir o sucesso de uma expedição, mas identificar expectativas, trabalhar a comunicação dentro da equipe e buscar dicas dos locais são pontos que irão lhe ajudar muito a evitar possíveis problemas e acidentes nas suas expedições – e até mesmo em trilhas e aventuras menores.

Cuidado com as Expectativas - Hugh Newall

1. Identifique as expectativas dos participantes da expedição

Eu estava me preparando para uma expedição de seis semanas do ANU Mountaineering Club (ANUMC) ao Peru. No meu planejamento, vasculhei a internet em busca de informações, consegui contatos locais e li os guias disponíveis. Até tentei aprender um pouco de espanhol!

Entretanto, esta viagem tinha um grande ponto de interrogação – os três membros da minha equipe. Eu conhecia e já tinha escalado com apenas um deles antes, e esse cara me confirmou as habilidades dos outros dois participantes.

Eu estava confiante na capacidade deles, mas, mesmo assim, queria garantir que todos teríamos uma viagem agradável e segura juntos. Então chamei meu companheiro Zac Zaharias, um alpinista australiano muito conceituado, para uma conversa. Ele me convidou para um café e me deu alguns conselhos importantes, dentre eles a ideia de identificar as expectativas do grupo.

Por “expectativas”, quero dizer os resultados que todos esperam alcançar. Também é importante saber como priorizá-los. Um membro da equipe pode valorizar o cume acima de tudo, enquanto outro pode valorizar voltar pra casa com todos os dedos das mãos e dos pés.

Quando não identificamos as expectativas do grupo antecipadamente podemos ter que lidar com atritos entre a equipe durante os momentos críticos. Aquela situação onde as expectativas de alguns membros entram em conflito com as expectativas de outros durante uma decisão de prosseguir ou não na montanha, por exemplo.

Cada um de nós sabia, em teoria, o que esperar um do outro. Mas na prática, em face de todas as variáveis ​​que vêm com a mistura de humanos e natureza, precisamos ajustar nossas expectativas ao longo do caminho.

Eu vivenciei esse tipo de atrito antes, durante um curso de montanhismo que fiz com dois amigos na Nova Zelândia. Todos nós estávamos lá para aprender, no entanto, durante o curso os nossos interesses divergiram e a tensão entre nós aumentou.

A minha prioridade era aprender tudo o que pudesse, enquanto meus dois amigos se preocupavam mais com a experiência em geral. Um deles não valorizava aprender quando estava numa situação de desconforto e ficava menos motivado durante os dias longos e cansativos. O outro foi para o curso mais focado em capturar momentos da viagem do que em aprender – e passou um tempo considerável fotografando.

Os objetivos, prioridades ou expectativas de uma pessoa não valem menos do que os de outra. Mas, como nossas motivações nem sempre se alinhavam, fiquei frustrado quando as fotos atrasaram os períodos de instrução e quando a falta de atenção de um dos meus amigos começou a afetar a segurança. E, é claro, meus amigos também ficaram frustrados comigo.

Identifique as expectativas com antecedência!

As expectativas dos membros de uma expedição podem ser totalmente incompatíveis, afetando a segurança da equipe ou dificultando o estabelecimento de metas. Se você identificar diferentes motivações antecipadamente, poderá planejar uma estratégia que agrade a todos (ou quase todos) e que evite atritos.

Para minha expedição ao Peru, nossa equipe discutiu muitos aspectos de antemão; com quanto risco todos se sentiam confortáveis, nossas preocupações, as montanhas que mais nos interessavam e nosso estilo preferido de escalada. Iríamos levar mais equipamentos de escalada e avançaríamos mais devagar? Ou levaríamos menos equipamentos para irmos mais rápido?

Tudo isso nos levou a um plano adequado a toda a equipe – ou assim pensamos.

Em teoria, sabíamos o que esperar um do outro. Na prática – em face de todas as variáveis ​​que vêm com a mistura de humanos e natureza – precisamos ajustar as coisas ao longo do caminho.

Esteja preparado para recalibrar as expectativas do seu grupo

Diante de vários desafios que surgem ao longo do caminho, às vezes aquela estratégia muito bem planejada no papel simplesmente não dá certo.

Quando as coisas não estavam indo totalmente bem, tivemos que lidar com os problemas. Como resultado, escalamos montanhas que se adequavam ao nosso nível de risco compartilhado e nos dividimos em equipes menores quando os objetivos não interessavam ao grupo todo. Como resultado, concluímos a expedição de 43 dias satisfeitos com nossos esforços e felizes como equipe – respeitando os limites e expectativas de cada um.

Cuidado com as expectativas do grupo para uma expedição

2. “Não é real a menos que seja compartilhado”

Eu peguei esta citação do livro de Pete Blaber, “The Mission, the Men, and Me”. Pete era um comandante da “Delta”, uma unidade de elite das Forças Especiais americanas.

A ideia é que más decisões são tomadas quando as informações não são compartilhadas. Não falar sobre as bolhas nos seus pés é um exemplo perfeito disto. Quando um membro não se manifesta sobre um possível ponto crítico, ou se essa manifestação não for considerada pelo grupo, esse problema pode rapidamente atrapalhar toda a expedição ou até se tornar um risco para segurança. Certa vez, um grande amigo meu precisou de um resgate de helicóptero por causa de bolhas extremas!

Durante nossa expedição no Peru, nos baseamos no município de Huaraz (3.000m altitude). Tínhamos objetivos de até 6.000m e os níveis de oxigênio nessas altitudes exigiam aclimatação. Se não for gerenciado de maneira adequada, o mal da altitude pode rapidamente se transformar em uma emergência médica e até mesmo levar à morte.

Uma estratégia comum de aclimatação é caminhar até uma altitude mais alta e dormir em uma altitude mais baixa, permitindo que o corpo se ajuste antes de progredir montanha acima. Eu lutei para me aclimatar no mesmo ritmo que os outros membros da minha equipe, mas não estava dando certo.

Os outros estavam se sentindo bem e estavam ansiosos para aumentar a altitude a uma taxa além da minha capacidade de aclimatação. Eu, no entanto, tive que colocar meu ego de lado e ser franco com eles sobre minha situação. Prolongamos o cronograma de aclimatação e ainda assim alcançamos os cumes planejados naquela expedição. Se eu tivesse guardado isso para mim, poderia ter ficado incapacitado, colocando toda a minha equipe em uma situação perigosa.

As decisões são tomadas com base nas informações disponíveis. Se algo mudar na saúde, na mentalidade ou nos níveis de energia de um membro da equipe, isso precisa ser compartilhado. A equipe pode então decidir fazer alterações simples no plano para garantir que o bem-estar da equipe seja preservado.

Expedição Shaqsha - Peru

Expedição Alta Montanha Peru

3. Ouça os locais

Você pode aprender as coisas da maneira mais difícil ou pode facilmente aprender com aqueles que vieram antes de você e têm experiência direta.

Para a expedição de montanhismo no Peru, precisávamos de mulas de carga para transportar nosso equipamento vale acima até um acampamento base. Planejamos chegar ao início da trilha e organizar a carga ali – acredito essa foi a indicação que eu li em um guia de 2006.

Antes de nossa partida, no entanto, um guia local nos disse que a carga e as mulas deveriam ser organizados na cidade no dia anterior. Acontece que as mulas não estavam disponíveis assim de uma hora para outra, os fazendeiros precisavam recolher os animais que estavam soltos nos campos. Se tivéssemos acabado de chegar sem reservá-los com antecedência, teríamos perdido um dia inteiro para resolver essa questão.

É sempre valioso aprender com quem tem um conhecimento local atualizado. Claro, um “local” pode ser apenas uma pessoa que completou recentemente o mesmo trajeto – ou mesmo um guia. A ideia é simplesmente obter as informações necessárias para não cometer erros que poderiam ter sido evitados. No jargão da escalada, essa dica é conhecida como “beta”.

Nem sempre os “betas” estão disponíveis, às vezes, a aventura consiste em explorar algum lugar remoto e sem muitas informações seguras – na esperança de que os “erros” se tornem apenas boas histórias no futuro.

Certa vez eu estava percorrendo uma longa e sinuosa rota com meu parceiro. Ofereci um mapa a ele, mas ele estava confiante de que encontraria o caminho. Dez minutos depois, ele admitiu que estava perdido. Com a ajuda do mapa, ele encontrou o caminho logo depois – e desta vez a única coisa que ele perdeu foi um pouco de orgulho.

Mas em outras situações, um planejamento inadequado pode acabar em uma expedição desastrosa, ou até mesmo em algum acidente fatal. Leia sobre a história ocorrida em 2016 com Ondrej Petr e Pavlina Pizova durante uma caminhada na Nova Zelândia se quiser um exemplo.

A confiança exagerada é um perigo diante das condições da montanha.

SHAQSHA – Uma expedição de sucesso

Uma de nossas escaladas no Peru foi a bela Shaqsha (5.703m), uma montanha exibida na capa do famoso Guia de Brad Johnson, mas não costuma tem muitas ascensões.

Parte de nossa rota planejada para o dia do cume incluiu uma abordagem final abaixo da geleira por meio de uma passagem entre a montanha e uma crista adjacente. Não era visível nas fotos, mas parecia simples no guia e no mapa. No dia anterior, havíamos caminhado até uma área onde poderíamos inspecionar a montanha. No entanto, o ponto de abordagem ainda estava escondido atrás de uma grande e complexa formação rochosa.

Shaqsha - Peru
Shaqsha – Peru

No dia seguinte, saímos da barraca às 2h30 da madrugada, e logo depois eu deixei cair acidentalmente a minha garrafa de água, o que me deixou com apenas 1,5L de água. Optamos por continuar mesmo assim e compartilhar a nossa água, se necessário.

No escuro, mudamos ligeiramente de curso e, algumas horas depois, estávamos parados na frente de um penhasco – com o nosso ponto de passagem abaixo e a montanha à nossa frente.

Conseguimos fazer um rapel de 60m na ​​falésia e logo voltamos ao roteiro que planejamos. Mas já tínhamos perdido várias horas. Nossa equipe decidiu continuar até o cume, apesar de nosso desvio não intencional. Continuaríamos a reavaliar nossos planos ao longo do dia. Navegando por fendas complexas e uma face de neve íngreme, a escalada foi longa e árdua, mas totalmente espetacular. Chegamos ao cume e conseguimos descer em segurança.

Com o passar do dia, ficamos cada vez mais cansados ​​e com pouca água. No entanto, a nossa comunicação foi excepcional e chegamos nas barracas às 20h30.

Expedição Peru - Montanha Shaqsha

O planejamento completo nunca irá garantir uma aventura tranquila. As coisas dão errado, simplesmente acontece.

Nesta situação, não poderíamos ter aprendido mais nada sobre a rota que escolhemos. E por um acaso nós saímos do curso. Da mesma forma, não poderíamos ter previsto a perda da minha garrafa de água. Todos concordamos previamente que nosso retorno seguro sempre foi mais importante do que o cume e estávamos preparados para recuar se as condições exigissem. Felizmente, ainda chegamos ao topo e voltamos – com segurança.

Não há garantias quando estamos em um ambiente outdoor. Seja sempre o mais preventivo possível – evitando erros desnecessários e mitigando os danos causados ​​pelos eventos que você não pode evitar completamente. Ouça os locais, obtenha os betas e comunique-se claramente com sua equipe. Reavalie seus planos quando a situação mudar.

E, se suas expectativas incluem voltar com todos os dedos das mãos e dos pés, certifique-se atingir essa meta!

Texto por: Hugh Newall / blog Sea to Summit – com adaptações

Sobre Hugh Newall, o aventureiro narcoléptico

 
Hugh Newall

Hugh passa seu tempo esquiando e escalando. Diagnosticado como um narcoléptico tipo 2, sua vida deveria ser sonolenta, mas ele tem estado muito ocupado correndo duas ultramaratonas, completando uma expedição de montanhismo ao Peru e uma temporada de esqui no sertão australiano, tudo isso em 2019.

Site: https://www.hughnewallphoto.com/
Instagram: @narcoleptic.adventurer

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