Algumas dicas após caminhar 400km na Te Araroa Trail

Algumas dicas após caminhar 400km na Te Araroa Trail

Normalmente, ao iniciar uma caminhada no estilo “thru hike” (onde o caminhante percorre uma trilha de longo curso inteira, dentro de um certo período), é recomendado que você comece devagar – fazendo caminhadas mais curtas nos dias iniciais para permitir que seu corpo se acostume com o esforço. Mas a Te Araroa Trail joga você direto no fundo do poço, com a famosa “praia de noventa milhas”. Trechos com 30 km de caminhada na areia entre os acampamentos. “Sobreviva à praia, sobreviva à caminhada”.

Pensei nisso enquanto saía arrastando os meus pés das dunas no meu terceiro dia em direção ao Santo Graal da Te Araroa Trail – um acampamento com uma ducha quente.

Tudo doía. Meus pés só podiam se mover alguns centímetros de cada vez. Eu sabia que o acampamento estava ali acima da colina e eu poderia me sentar logo, mas nada faria meu corpo se mover mais rápido do que realmente estava.

Três dias de caminhadas intermináveis ​​na praia cobraram seu preço. Eu cheguei no acampamento e vi um pequeno grupo de pessoas sentadas e unidas pela dor contínua das 90 milhas da praia. As saudações começaram assim que eles me viram entrar no acampamento. O anjo da trilha (trail angel) – como chamamos as pessoas que abrem suas casas para nós, caminhantes – riu ao me ver.

‘Aqui está a gigante da trilha com a menor mochila’, ele disse em voz alta. Eu ri com ele enquanto deixava o peso da minha mochila cargueira vermelha deslizar do meu corpinho de 1.50m e cair em uma cadeira.

Músculos que eu nem sabia que tinha estavam doendo. Minhas articulações do quadril doíam de andar na areia irregular da praia por três dias. Meus pés estavam cansados. Eu nunca tinha forçado meu corpo de forma a notar até mesmo as menores mudanças nos músculos dos meus pés. Andar 70km na areia é muito diferente de subir montanhas. Eu me perguntei se era apenas eu, a pessoa que não havia treinado, que estava lidando com esse tipo de dor. Mas todos os outros caminhantes que conheci tinham suas próprias batalhas físicas – bolhas, dores nas canelas, queimaduras de sol… Eu não estava sozinha.

Caminhada Trilha de longo Curso Te Araroa Trail

Esse foi o único dia, até agora, em que me perguntei se conseguiria terminar a trilha. Meus quadris estavam doloridos de uma maneira que deixava preocupada. Será que eu me machucaria se continuasse? Eu precisava de um dia de descanso. Felizmente, havia uma cidade na minha rota e eu estava indo pra lá. Uma cidade com pizza, café, chocolate – todas essas coisas com que um trilheiro de longa distância sonha. Se eu tivesse que tirar um ‘dia zero’ para minhas articulações, eu queria que fosse em um lugar que tivesse pizza.

Lutei para fechar a barrigueira da minha mochila ao redor de meus quadris inchados e vermelhos. Lutei para começar a andar de novo em meio à dor. Eu só tinha que fazer os últimos 31 km. Outras oito horas de praia, areia e vento. Mais um dia enchendo minha garrafa de água nos pequenos riachos que desembocam no oceano. Mais um dia comendo atum ligeiramente salpicado com areia e biscoitos.

Decidi tomar um ibuprofeno para me ajudar nas últimas horas. Funcionou bem demais. A dor desapareceu e fui andando, chegando a atingir um ritmo de 6km por hora no início do dia. Eu cheguei em Ahipara, o marco de 100 km da trilha (e o final daquela maldita praia), quase intacta – só perdi uma unha no caminho.

Aquele começo doloroso ficou para trás, passei por alguns marcos e ficava cada vez mais fácil a cada quilômetro que andava. Eu atravessei as florestas mais lamacentas, me esquivei dos pássaros que davam rasantes, cruzei um rio na maré alta com minha mochila equilibrada precariamente na minha cabeça e esperei algumas tempestades aterrorizantes passarem (quando fiquei acordada de madrugada contando os segundos entre o relâmpago e o trovão). Até agora TA Trail já tinha jogado mil coisas no meu caminho, e iria jogar outras mil antes do final.

Pensando em tudo isso resolvi compilar algumas dicas com o que aprendi até agora. Dicas de alguém que não está apenas sobrevivendo, mas também prosperando no desafio e na beleza desta empreitada épica. Aqui estão algumas lições que aprendi duramente ao longo destes quilômetros iniciais.

Trilha de Longo Curso Caminhada

1. CAMINHE SUA PRÓPRIA CAMINHADA

Você pode ter ouvido isso antes, mas quando você está na trilha, isso realmente passa a fazer sentido. Eu conheci várias pessoas que tiveram que desistir. Elas não haviam se preparado mentalmente para o que a caminhada seria. Elas não estavam prontas para as sessões de autoterapia que acontecem quando você passa horas sozinho em sua cabeça – ou para a realidade de como uma mochila é pesada quando você carrega tudo que precisa para sobreviver. Mesmo quando você tem o equipamento mais leve, o peso continua sendo um obstáculo mental.

Eu conheci pessoas que começaram seriamente despreparadas e estão conseguindo mesmo assim, e eu conheci os profissionais absolutos que já se machucaram e tiraram uma semana longe da trilha para se recuperar. Conheci pessoas que estão correndo na trilha e conheci outras como eu, que dedicam um tempo para cheirar as rosas e fazem intervalos longos e lentos para um café com uma bela vista – e que passam tanto tempo tirando fotos que eles não chegam no acampamento antes do pôr do sol. Todo mundo está fazendo sua própria caminhada e, até agora, estou amando a minha.

2. COMA O QUE VOCÊ TEM ANTES DE REABASTECER

A fome do caminhante é real e pode causar sérios danos ao orçamento da caminhada e ao peso transportado na mochila. De alguma forma, toda vez que eu saio das lojas, me convenço de que definitivamente preciso daquele pedaço extra de queijo, bloco de chocolate ou sorvete. Ainda estou aprendendo esta lição muito difícil.

Alimentação durante a caminhada

Aqui no Gear Tips tem outro texto onde eu falo sobre a minha alimentação na Te Araroa Trail, confira: dicas de alimentação para um trekking longo.

Alimentos rápidos para trekking

3. NÃO ALIMENTE OS ANIMAIS – MESMO QUE INVOLUNTARIAMENTE

Guarde a comida de maneira adequada para evitar que os animais tentem entrar na sua barraca às 2 da manhã. Conheci um infeliz caminhante que ganhou um buraco na barraca por causa desse descuido. Eu mesma passei uma noite sem dormir jogando a luz da minha lanterna de cabeça sobre os pequenos ladrões travessos. Se você tiver uma lanterna em mãos, use-a. Em geral os animais evitarão a luz se puderem.

4. VEJA ONDE VOCÊ COLOCA SEUS BASTÕES DE TREKKING

Bastões de fibra de carbono podem dar problemas mais facilmente do que os de alumínio quando você está escorregando e deslizando em florestas lamacentas. Felizmente, a marca do meu bastão de carbono está enviando algumas peças de reposição para mim.

5. BOLHAS APARECEM…

Não foi a areia da praia que me causou bolhas, isso graças às minhas polainas. O meu problema foi caminhar por rios e estuários. Para situações assim use um calçado que seque mais facilmente e se for necessário enxugue bem seus pés e troque as meias. Minha contagem de bolhas atingiu cerca de 12, mas desde então elas se curaram e formaram calosidades. Evitei algumas delas colocando curativos flexíveis e à prova d’água no ponto de atrito do calçado com o meu pé, antes que uma bolha nova surgisse. Mas quando não podia evitar eu furava a bolha, drenava e protegia bem o local antes do próximo dia de caminhada. Nenhuma das minhas bolhas doeu muito no dia seguinte, então esse procedimento está funcionando bem para mim.

Polaina Sea to Summit
Polaina Sea to Summit para impedir a entrada de lama, areia ou cascalho dentro do meu tênis

Recebi uma dica de um caminhante mais experiente que me disse que eu poderia improvisar uma meia de liner usando meias bem finas (como as meias-calças), e desde que fiz isso não tive mais bolhas. Eu vou comprar meias de liner próprias para hiking na minha próxima parada em uma cidade, já que as meias finas improvisadas como liner não duram muito.

Cuidado com seus pés em uma caminhada longa
Pés úmidos e trilhas longas não são uma boa combinação!

6. CUIDADO ONDE PISA

Se você tropeçar e cair para a frente, uma mochila cargueira pesada ganha impulso e acaba caindo sobre você e forçando sua cabeça a bater no chão. Aprendi isso da pior maneira, inclusive o machucado na minha cabeça está curando bem. Obrigado por perguntar!

7. NÃO COMPRE CALÇADOS JUSTOS DEMAIS

Seus pés incham quando você anda o dia todo, e todos os dias. Felizmente, meus tênis funcionaram muito bem, mas conheci vários caminhantes que já tiveram que comprar o segundo par porque seus pés incharam muito.

8. NÃO MONTE SUA BARRACA DO LADO DA PISCINA

Considere cuidadosamente onde você montará sua barraca para evitar acordar dentro de uma piscina durante uma tempestade. É um erro que só se comete uma vez (eu espero), mas você pode simplesmente aprender com meus erros e armar a sua barraca em um terreno mais alto, longe de possíveis poças ou caminhos naturais que a água pode usar para escoar pelo terreno.

Acampamento durante a Te Araroa Trail

9. CONTINUE CAMINHANDO…

Apenas continue. É isso. Não há tempo para desânimo, mesmo se você estiver tentando caminhar pelas raízes das árvores no escuro após um dia de trilha com 13 horas de duração. Não importa. Mais uma etapa, e depois outra, e você chegará no seu destino. É realmente simples, apenas mantenha-se caminhando. Canalize a sua Dory interior e cante para si mesmo – “continue andando, continue andando. O que nós fazemos? Caminhamos, caminhamos, caminhamos.”

Uma caminhada pela Te Araroa Trail, ou em outras trilhas de longo curso, irá lhe proporcionar o seu melhor – e o seu pior dia – no mesmo período de 24 horas! Mas a cada quilômetro a trilha traz uma nova aventura e uma nova lição. Eu já aprendi muito nestes 400 km – e ainda tem muito mais por vir.

Polainas em uma trilha com lama
Continue caminhando!

Texto: Louise Coghill / Blog da Sea to Summit – com adaptações

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